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Blog EntryApr 21, '07 5:28 PM
for everyone

(teria eu uns 15 anos quando ouvi isto pela primeira vez na Antena 2. Escusado será dizer que ri até me doer a barriga. Desde então tenho procurado despreocupadamente por este texto.. e eu procurei, procurei até que um dia o reencontrei. vale a pena. :)


Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.

O ano passado fiz várias conferências sobre “A Inteligência e a Musicalidade nos Animais”.

Hoje vou falar-vos “Da Inteligência e da Musicalidade nos Críticos. O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.

Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato, porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos agarrarmos para dizer isso: Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.

Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como os animais embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.

Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores mundanos, se assim podemos chamar-lhes.

De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos críticos… os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima de qualquer preço.

Há três espécies de críticos: os importantes; os que são menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos importantes.

Fisicamente o crítico tem um ar grave, é um tipo do género rabecão. Ele próprio é um centro, um centro de gravidade. Se ri, ri só com um olho, que pode ser o bom ou o mau. Sempre muito amável para as Senhoras [Este texto foi escrito em 1918. N. do T.], com toda a calma mantém os Senhores à distância. Para resumir, é muito agradável à vista mas bastante intimidativo. Um homem sério, tão sério como um Buda; evidentemente, um Buda-peste. Mediocridade, incapacidade, não são coisas que haja entre os críticos. Entre colegas, um crítico medíocre ou incapaz seria motivo de riso; não conseguiria exercer a sua profissão, melhor dizendo o seu sacerdócio, pois ver-se-ia obrigado a abandonar a terra, mesmo que ela lhe fosse natal; e ser-lhe-iam fechadas todas as portas, ficando a sua vida reduzida a um suplício longo e terrível de tanta monotonia.

Quanto ao Artista, não passa de um sonhador; o crítico, esse, além da sua própria consciência tem a consciência da realidade. Um artista pode ser imitado; o crítico é inimitável e impagável. Como poderia alguém imitar um crítico? Pergunto eu. Aliás, seria coisa de muito, muito reduzido interesse. Dispomos do original e basta. Quem afirmar que a crítica é ligeira não diz nada que tenha um verdadeiro interesse. Chega mesmo a ser vergonha dizê-lo: era bem feito que ela corresse atrás dele, pelo menos um quilómetro ou dois.

Homem que escreva semelhante coisa virá a arrepender-se do que disse? É possível que sim, devemos desejar que sim, é mais do que certo que sim.

O cérebro de um crítico é um armazém, um grande armazém.

Há lá de tudo: ortopedia, ciências, roupas de cama, artes, mantas de viagem, um grande sortido de mobílias, papel de carta francês e estrangeiro, artigos para fumadores, luvas, guarda-chuvas, artigos de lã, chapéus, artigos de desporto, bengalas, óculos, perfumes, etc. O crítico sabe tudo, vê tudo, diz tudo, ouve tudo, topa tudo, remexe tudo, come de tudo, confunde tudo e nem por isso deixa de pensar menos. Mas que homem!! Digam o que disserem!!! “Todos os nossos artigos são garantidos!!!” Para dentro do crítico!! Veja!! Verifique mas não toque!! É único. Incrível.

O crítico também é uma vigia; pode mesmo acrescentar-se que é uma bóia. Assinala todos os recifes que existem ao longo das costas do Espírito Humano. Soberbo de clarividência ao longe, o crítico vigia perto dessas costas, dessas costas largas. O seu ar fá-lo parecido com um marco de pedra, embora pedra simpática, inteligente.

E como consegue chegar a essa posição elevada, a essa posição de bóia, de marco?

Por mérito, por mérito agrícola e pessoal. Digo agrícola porque cultiva o amor pelo Justo e pelo Belo. Com isto chegamos a um ponto delicado. Os críticos são recrutados por escolha como os produtos extra-superiores, de primeira qualidade, ditos de primeira escolha.

O Director de um jornal, de uma revista ou de qualquer outro periódico é quem descobre o crítico necessário para formar o bom elenco da sua redacção.

Nenhum pedido o influencia. Descobre-o depois de um severo exame de consciência. Trata-se de um muito demorado e muito difícil exame, tanto para o crítico como para o Director. Um interroga o outro desconfia. É uma luta angustiante e cheia de inesperado. De um e outro lado, todas as manhas são usadas. O director acaba por ser vencido. Em geral é o que acontece se o crítico for de boa raça e tiver tido um treino cuidadosamente planeado. O Director é absorvido, é digerido pelo crítico.

O Director raramente escapa.

O verdadeiro sentido crítico não está em ele criticar-se, mas em criticar os outros: a tranca que tem no seu próprio olho não impede que veja a palha no olho do vizinho; e a tranca, neste caso, transforma-se em óculo de longo alcance, muito, muito longo que aumenta aquela palha desmesuradamente.

Nunca é de mais admirar-se a coragem do primeiro crítico que surgiu no mundo. A grosseira gente da Velha Noite dos Tempos deve tê-lo recebido à sapatada sem ver que se tratava de um precursor digno de veneração. À sua maneira foi um herói.

E o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto críticos não foram, com toda a certeza, melhor recebidos… embora ajudassem a criar um precedente: a Arte Crítica que se trazia a si mesma à luz do dia. Foi esse o seu primeiro dia do ano. Muito mais tarde, estes Benfeitores da Humanidade souberam organizar-se melhor: em todas as grandes capitais fundaram Sindicatos da Crítica. E assim foi que os críticos se tornaram personagens notáveis, provando que a virtude acaba sempre por ser recompensada. De repente, os Artistas foram postos à rédea curta, foram domados como tigres. É justo que os Artistas sejam guiados pelos críticos. Nunca compreendi a susceptibilidade dos Artistas perante as advertências dos críticos. Julgo que haverá nisso orgulho, um mal colocado, um desagradável orgulho. Os Artistas só ganhariam se venerassem mais os críticos; se os ouvissem com respeito; se fossem ao ponto de os amar, convidar com frequência para comer lá em casa entre o tio e o avô. Sigam o meu exemplo, o meu bom exemplo: a presença de um crítico fascina-me; tal é o seu brilho, que fico mais de uma hora a piscar os olhos; beijo-lhe o rasto das pantufas; bebo-lhe as palavras, por educação, num grande cálice de pé. Estudei muito os costumes dos animais mas verifiquei, ai de mim, que não têm crítica. É-lhes estranha essa Arte; pelo menos, não sei da existência de qualquer obra deste género nos arquivos dos meus animais. Talvez os meus amigos críticos conheçam uma ou mesmo várias. Tenham, pois, a amabilidade de mo dizerem, e quanto mais depressa melhor. Sim, os animais não têm críticos. O lobo não critica o cordeiro: come-o; e não procede assim por desprezar a arte do cordeiro mas por admirar a carne e até os ossos desse animal que é tão bom, tão bom em caldeirada.

A nós, falta-nos uma disciplina de ferro ou de qualquer outro metal. E só os críticos saberão impô-la, obrigar-nos a segui-la de longe. Nada mais pedem do que inculcar-nos os excelentes princípios da obediência. Devemos lamentar os que desobedecem; desobedecer às nossas más paixões, mesmo que sejam elas próprias a mandar-nos fazer o contrário. Mas como reconhecer as paixões más, más como as cobras? Sim, como?

Pelo prazer que a gente sente em ceder-lhes, em entregar-se, e porque desagradam aos críticos.

Eles, críticos, não têm paixões más. E como poderia essa boa gente tê-las? É gente sem paixão nenhuma, absolutamente nenhuma; sempre calma, que só pensa no dever de corrigir os defeitos às pobres criaturas e em tirar daí um rendimento aceitável que dê, muito simplesmente, para os alfinetes.

A sua tarefa é essa. Tarefa própria destes homens de bom conselho; sim, porque conselhos não lhes faltam; por cada um existem milhares de conselhos, e até mesmo conselhos regionais.

Agradeçamos todos os sacrifícios que os críticos fazem diariamente pelo nosso bem; roguemos para a Providência os proteger de todo o género de enfermidades; os afastar de todo o tipo de contratempos; fazer com que tenham muitos meninos, e de toda a espécie, capazes de darem continuidade à espécie deles. São votos que não poderão fazer-lhes bem nem mal. Que ao menos lhes valham de muito e lhes dêem mais pés… … … para escrever.

Tradução de Alberto Nunes Sampaio, in Memória de um Amnésico, Hiena Editora.


spojr wrote on Apr 23, '07
Demais !! vou linkar ... grande Beijo!!
laideronnette wrote on Apr 23, '07
oh, pode linkar, pode "roubar".. partilhe.. hehe
Satie iria gostar.
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