(teria eu uns 15 anos quando ouvi isto pela primeira vez na Antena 2.
Escusado será dizer que ri até me doer a barriga. Desde então tenho
procurado despreocupadamente por este texto.. e eu procurei,
procurei até que um dia o reencontrei. vale a pena. :)
Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir
reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.
O ano passado fiz várias conferências sobre “A Inteligência
e a Musicalidade nos Animais”.
Hoje vou falar-vos “Da Inteligência e da Musicalidade nos
Críticos. O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.
Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato,
porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos
agarrarmos para dizer isso: Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.
Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que
fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como
os animais embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.
Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de
Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores
mundanos, se assim podemos chamar-lhes.
De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de
Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que
me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos
críticos… os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima
de qualquer preço.
Há três espécies de críticos: os importantes; os que são
menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos
importantes.
Fisicamente o crítico tem um ar grave, é um tipo do género
rabecão. Ele próprio é um centro, um centro de gravidade. Se ri, ri só com um
olho, que pode ser o bom ou o mau. Sempre muito amável para as Senhoras [Este
texto foi escrito em 1918. N. do T.], com toda a calma mantém os Senhores à
distância. Para resumir, é muito agradável à vista mas bastante intimidativo.
Um homem sério, tão sério como um Buda; evidentemente, um Buda-peste.
Mediocridade, incapacidade, não são coisas que haja entre os críticos. Entre
colegas, um crítico medíocre ou incapaz seria motivo de riso; não conseguiria
exercer a sua profissão, melhor dizendo o seu sacerdócio, pois ver-se-ia
obrigado a abandonar a terra, mesmo que ela lhe fosse natal; e ser-lhe-iam
fechadas todas as portas, ficando a sua vida reduzida a um suplício longo e
terrível de tanta monotonia.
Quanto ao Artista, não passa de um sonhador; o crítico,
esse, além da sua própria consciência tem a consciência da realidade. Um
artista pode ser imitado; o crítico é inimitável e impagável. Como poderia
alguém imitar um crítico? Pergunto eu. Aliás, seria coisa de muito, muito
reduzido interesse. Dispomos do original e basta. Quem afirmar que a crítica é
ligeira não diz nada que tenha um verdadeiro interesse. Chega mesmo a ser
vergonha dizê-lo: era bem feito que ela corresse atrás dele, pelo menos um
quilómetro ou dois.
Homem que escreva semelhante coisa virá a arrepender-se do
que disse? É possível que sim, devemos desejar que sim, é mais do que certo que
sim.
O cérebro de um crítico é um armazém, um grande armazém.
Há lá de tudo: ortopedia, ciências, roupas de cama, artes,
mantas de viagem, um grande sortido de mobílias, papel de carta francês e
estrangeiro, artigos para fumadores, luvas, guarda-chuvas, artigos de lã,
chapéus, artigos de desporto, bengalas, óculos, perfumes, etc. O crítico sabe
tudo, vê tudo, diz tudo, ouve tudo, topa tudo, remexe tudo, come de tudo,
confunde tudo e nem por isso deixa de pensar menos. Mas que homem!! Digam o que
disserem!!! “Todos os nossos artigos são garantidos!!!” Para dentro do
crítico!! Veja!! Verifique mas não toque!! É único. Incrível.
O crítico também é uma vigia; pode mesmo acrescentar-se que
é uma bóia. Assinala todos os recifes que existem ao longo das costas do
Espírito Humano. Soberbo de clarividência ao longe, o crítico vigia perto
dessas costas, dessas costas largas. O seu ar fá-lo parecido com um marco de
pedra, embora pedra simpática, inteligente.
E como consegue chegar a essa posição elevada, a essa
posição de bóia, de marco?
Por mérito, por mérito agrícola e pessoal. Digo agrícola
porque cultiva o amor pelo Justo e pelo Belo. Com isto chegamos a um ponto
delicado. Os críticos são recrutados por escolha como os produtos
extra-superiores, de primeira qualidade, ditos de primeira escolha.
O Director de um jornal, de uma revista ou de qualquer outro
periódico é quem descobre o crítico necessário para formar o bom elenco da sua
redacção.
Nenhum pedido o influencia. Descobre-o depois de um severo
exame de consciência. Trata-se de um muito demorado e muito difícil exame,
tanto para o crítico como para o Director. Um interroga o outro desconfia. É
uma luta angustiante e cheia de inesperado. De um e outro lado, todas as manhas
são usadas. O director acaba por ser vencido. Em geral é o que acontece se o
crítico for de boa raça e tiver tido um treino cuidadosamente planeado. O Director
é absorvido, é digerido pelo crítico.
O Director raramente escapa.
O verdadeiro sentido crítico não está em ele criticar-se,
mas em criticar os outros: a tranca que tem no seu próprio olho não impede que
veja a palha no olho do vizinho; e a tranca, neste caso, transforma-se em óculo
de longo alcance, muito, muito longo que aumenta aquela palha desmesuradamente.
Nunca é de mais admirar-se a coragem do primeiro crítico que
surgiu no mundo. A grosseira gente da Velha Noite dos Tempos deve tê-lo
recebido à sapatada sem ver que se tratava de um precursor digno de veneração.
À sua maneira foi um herói.
E o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto críticos não
foram, com toda a certeza, melhor recebidos… embora ajudassem a criar um precedente:
a Arte Crítica que se trazia a si mesma à luz do dia. Foi esse o seu primeiro
dia do ano. Muito mais tarde, estes Benfeitores da Humanidade souberam
organizar-se melhor: em todas as grandes capitais fundaram Sindicatos da
Crítica. E assim foi que os críticos se tornaram personagens notáveis, provando
que a virtude acaba sempre por ser recompensada. De repente, os Artistas foram
postos à rédea curta, foram domados como tigres. É justo que os Artistas sejam
guiados pelos críticos. Nunca compreendi a susceptibilidade dos Artistas
perante as advertências dos críticos. Julgo que haverá nisso orgulho, um mal
colocado, um desagradável orgulho. Os Artistas só ganhariam se venerassem mais
os críticos; se os ouvissem com respeito; se fossem ao ponto de os amar,
convidar com frequência para comer lá em casa entre o tio e o avô. Sigam o meu
exemplo, o meu bom exemplo: a presença de um crítico fascina-me; tal é o seu
brilho, que fico mais de uma hora a piscar os olhos; beijo-lhe o rasto das
pantufas; bebo-lhe as palavras, por educação, num grande cálice de pé. Estudei
muito os costumes dos animais mas verifiquei, ai de mim, que não têm crítica.
É-lhes estranha essa Arte; pelo menos, não sei da existência de qualquer obra
deste género nos arquivos dos meus animais. Talvez os meus amigos críticos
conheçam uma ou mesmo várias. Tenham, pois, a amabilidade de mo dizerem, e
quanto mais depressa melhor. Sim, os animais não têm críticos. O lobo não
critica o cordeiro: come-o; e não procede assim por desprezar a arte do cordeiro
mas por admirar a carne e até os ossos desse animal que é tão bom, tão bom em
caldeirada.
A nós, falta-nos uma disciplina de ferro ou de qualquer
outro metal. E só os críticos saberão impô-la, obrigar-nos a segui-la de longe.
Nada mais pedem do que inculcar-nos os excelentes princípios da obediência.
Devemos lamentar os que desobedecem; desobedecer às nossas más paixões, mesmo
que sejam elas próprias a mandar-nos fazer o contrário. Mas como reconhecer as
paixões más, más como as cobras? Sim, como?
Pelo prazer que a gente sente em ceder-lhes, em entregar-se,
e porque desagradam aos críticos.
Eles, críticos, não têm paixões más. E como poderia essa boa
gente tê-las? É gente sem paixão nenhuma, absolutamente nenhuma; sempre calma,
que só pensa no dever de corrigir os defeitos às pobres criaturas e em tirar
daí um rendimento aceitável que dê, muito simplesmente, para os alfinetes.
A sua tarefa é essa. Tarefa própria destes homens de bom
conselho; sim, porque conselhos não lhes faltam; por cada um existem milhares
de conselhos, e até mesmo conselhos regionais.
Agradeçamos todos os sacrifícios que os críticos fazem
diariamente pelo nosso bem; roguemos para a Providência os proteger de todo o
género de enfermidades; os afastar de todo o tipo de contratempos; fazer com
que tenham muitos meninos, e de toda a espécie, capazes de darem continuidade à
espécie deles. São votos que não poderão fazer-lhes bem nem mal. Que ao menos
lhes valham de muito e lhes dêem mais pés… … … para escrever.
Tradução de Alberto Nunes Sampaio, in Memória de um
Amnésico, Hiena Editora.